Uma biografia em seis partes · Barcelona, 1982 – hoje
Cair, levantar-se, recomeçar.
A vida de Sergi Rodríguez Zambrana, um programador de Barcelona que na internet assinava spnfury e que hoje se apresenta como Sergio de la Rosa. Vinte anos a montar empresas em Espanha: umas foram vendidas, outras acabaram em insolvência e algumas continuam vivas.
Reconstruída a partir do seu blogue de 2007 a 2024 (recuperado do Wayback Machine), do registo comercial espanhol, da imprensa, das suas redes sociais e do código dos seus projetos. Todas as fontes estão ligadas; a maioria está em espanhol e as citações foram traduzidas. Leer en español
Barcelona, 17 de maio de 2009. A sua secretária no escritório novo da rua Llull, no 22@, o bairro tecnológico da cidade, um mês depois de lançar o Oooferton. Foi ele que tirou a fotografia, com um BlackBerry.
A montanha-russa
Antes da viagem, o mapa. Cada ponto é um momento real desta história. A altura não mede dinheiro nem faturação: mede como ia a vida, para cima ou para baixo, a julgar pelo que ele próprio escreveu em cada época.
12005Preso aos 1000 € por mês
22007Compra 50 % da Desig
32008O Casinuevo dá lucro
42009Oooferton: 100 000 €/mês
52010Obrigado a vender os seus 21 %
62011Ano e meio em silêncio
72012Onyougo em 16 países
82014Aceleradora e ronda de investimento
92015A Desig entra em insolvência
102015«Tanto tempo sem rumo»
112017Cofunda a Garantify
122018Garantify: 1547 agências
132020Shopipay para Shopify
142022Fundo cripto e ShopWin
152023Cai o tráfego, cai o AdSense
162024Nasce Sergio de la Rosa
172025Conta tudo num podcast
182026Quinze produtos ao mesmo tempo
Âmbar: acima do ponto de partida. Vermelho: abaixo.
I
Parte I · O mundo comum · 1982–2006
Um miúdo que programava e um ordenado que não chegava
Todo o herói parte de um lugar comum. O de Sergi é uma sala de informática em Barcelona e um ordenado de início de carreira.
Capítulo 1 · 1982 – 2004
Aprender a internet a ler o código dos outros
Sergi Rodríguez Zambrana nasce em 1982 na província de Barcelona. O instinto comercial chega antes do computador:
«O que sempre me fascinou foi o negócio, a compra e venda. Desde os 7 anos que eu vendia na escola: o meu pai fazia-me as fotocópias do Dragon Ball e eu vendia-as no recreio. Com isso comprava guloseimas e, muitas vezes, reinvestia em material.»
Pertence à geração que entrou na internet com modem e apito, e que aprendeu HTML a abrir o código-fonte dos sites dos outros. Anos depois resumi-lo-ia assim: «vivi a internet desde o início».
Faz o secundário na via tecnológica, no IES Ramon Casas i Carbó, e depois encadeia dois cursos superiores profissionais de informática (o equivalente espanhol mais próximo dos CTeSP portugueses): Administração de Sistemas Informáticos, na Escola del Clot, e Desenvolvimento de Aplicações Informáticas, no IES La Ferreria, em Montcada i Reixac. Mais tarde juntaria formação na EAE Business School.
Aos 19 anos já programa por encomenda. Em 2001 escreve a primeira versão do oh-holidays.com, um portal de viagens. No LinkedIn registá-lo-ia com a simplicidade de quem não sabia que acabava de entrar no turismo, o setor que marcaria a sua primeira década: «Desenvolvi a primeira versão deste portal como programador».
Depois vêm os empregos normais. Um estágio e um lugar de técnico e administrador de redes no Grupo Kalise Menorquina, um fabricante espanhol de gelados. Uns meses como freelancer para a Serveis Informàtics Barcelona, com cerca de cinco sites completos feitos sozinho. E um lugar de programador na Open House Spain.
Na Espanha de meados dos anos 2000 havia uma palavra para pessoas como ele: mileurista, alguém com estudos e talento preso a cerca de 1000 € por mês. Em Portugal, anos mais tarde, falar-se-ia da «geração à rasca». É a parte da história que quase ninguém conta e que explica tudo o que vem depois: um programador jovem com jeito, um ordenado à justa e a sensação de estar a construir coisas para os outros.
«Os meus começos são humildes, como os da maioria das pessoas com um emprego por conta de outrem: sim, mileurista. Depressa percebi que aquilo não me levaria a lado nenhum.»
Tinha duas coisas a seu favor. Programava depressa e tinha descoberto um ofício que em 2005 quase ninguém dominava: pôr um site em primeiro lugar no Google. O seu perfil da altura descrevia-o assim: «programação, design, aplicação de técnicas de marketing online e posicionamento orgânico». Esse ofício seria a sua primeira vantagem.
Sergi em 2009, aos 26 anos. Retrato publicado com a entrevista à BrandeaStudio.
II
Parte II · O chamamento à aventura · 2006–2008
Hipotecar a casa e atravessar o limiar
A oportunidade chega disfarçada de risco: deixar de ser empregado e comprar metade da empresa, com dinheiro que não tem.
Capítulo 3 · 2006 – 2010
Desig Barcelona: a aposta da sua vida
Em junho de 2006 Sergi entra como gestor de projeto no grupo Desig, uma pequena agência de apartamentos turísticos com escritório na rua Mallorca, em Barcelona. O site, desigbarcelona.com, oferecia «mais de 200 apartamentos turísticos em Barcelona e Sitges». Pedem-lhe o que faz melhor: que a encontrem no Google.
Dá a si próprio um ano para a pôr nos primeiros lugares. Demora nove meses. «Aos 9 meses conseguiram-se resultados espetaculares com “apartamentos barcelona” no google.es.»
desigbarcelona.com6 fev. 2010
A Desig Barcelona em fevereiro de 2010, um mês antes do melhor março da sua história: pesquisa de apartamentos, ofertas de última hora e ligações para Paris, Madrid e Granada.
É então que chega o chamamento. Os donos oferecem-lhe metade da empresa. Ele não tem esse dinheiro. Anos depois, o seu sócio Daniel Rodríguez Arias contou-o à EFE, a agência noticiosa espanhola: Sergi «teve a oportunidade de comprar 50 %… hipotecou a casa, pediu um empréstimo e comprou-a».
«Num ano comprei metade das ações e tornei-me empresário praticamente sem pensar nisso.»
Com os seus 50 %, Sergi aplica à Desig o que sabe de SEO: um site por cidade, em quatro línguas (espanhol, inglês, francês e italiano), e uma rede de blogues satélite no Blogspot para os fazer subir no Google. Em julho de 2008 o grupo tinha Desigbarcelona, Desigmadrid, Desigparis, Desigbuenosaires, Desigandalucia (Granada) e Desiginvestment, para investir em imóveis na Argentina.
Em 2009 a empresa já tem 8 pessoas. Em março de 2010, em plena crise, escreve que o mês vai «a caminho de ser o melhor da história da empresa em 5 anos, em faturação e em número de reservas, e isto quando dizem que estamos em crise». Juntam Valência, Roma, Berlim e Londres, um site em alemão, chat em direto com os clientes e um acordo com o site de viagens minube.com. Em setembro de 2010 modera o painel de abertura do COMITUR, o congresso de marketing turístico de Lloret de Mar, ao lado de gente da Yahoo e do Grupo ITnet.
Anos depois, ele próprio lhe chamaria «um dropshipping de apartamentos»: as casas não eram da Desig. A empresa punha o SEO e o atendimento ao cliente, e ficava com 25 % de cada reserva. No seu melhor momento faturava entre 60 000 e 70 000 € por mês, com 25–30 % de margem. «Gostava muito do negócio dos apartamentos porque era puro: não há produtos com defeito.»
da Desig, comprados com uma hipoteca
50 %
da Desig, comprados com uma hipoteca
destinos: BCN, Madrid, Paris, Buenos Aires, Granada, Roma, Berlim
7
destinos: BCN, Madrid, Paris, Buenos Aires, Granada, Roma, Berlim
Enquanto de dia fazia crescer a Desig, à noite programava algo só seu: casinuevo.net, um portal de anúncios classificados gratuitos, uma espécie de OLX espanhol. Os primeiros anúncios de teste são de agosto de 2006. A primeira captura do Wayback Machine, de agosto de 2007, mostra uma versão beta com seis anúncios.
«Nos tempos livres dedicava-me a desenvolver o meu portal de anúncios grátis. Com o tempo, e com muitas horas de dedicação, o portal conseguiu dar lucros consideráveis.»
Aplicou a mesma receita da Desig. Em setembro de 2007 gabava-se de ter posto «anúncios segunda mão» no 7.º lugar do Google numa única semana. Em janeiro de 2008 havia 1153 anúncios. Em outubro constitui a sua segunda empresa, a Cyberworld Networks S.L. (uma S.L. é o equivalente espanhol de uma sociedade por quotas, uma «Lda.»), como único fundador, e lança versões para o México (Avisosderemate.com, Casinuevo.com.mx), a América Latina (1000avisos.com), o Peru e o Equador.
casinuevo.net11 jun. 2010
O Casinuevo.net em junho de 2010: anúncios grátis por categorias e províncias. No rodapé: «Copyright Cyberworld Networks, S.L. · Webmaster: Sergi Rodríguez».
Em dezembro de 2008 faz algo que lhe custava: sair de trás do ecrã. Vai pela primeira vez ao Iniciador Barcelona, um encontro informal de empreendedores da internet espanhola, com o investidor Rodolfo Carpintier como convidado. «A verdade é que não sou muito de escrever, nem de interagir, nem de me abrir a estes eventos… mas já era tempo de mudar e de me dar um pouco a conhecer.» Numa dinâmica de grupo cabe-lhe fazer de «especialista» em SEO e admite que ficou em branco. Volta mesmo assim e, em 2009, confessa: «passei de nunca ir a estes eventos a ficar viciado; é como uma pequena droga».
Em fevereiro de 2009 publica tweets de uma viagem ao Equador. A biografia do seu Twitter diz «Webmaster – Empreendedor». Programa no escritório da Rambla del Poblenou «a beber um Red Bull e a programar a fundo», e pragueja contra o Zend Studio, que bloqueia pela quarta vez. Tem 26 anos e duas empresas.
Parte III · Provas, aliados e inimigos · 2009–2010
Três empresas, um armazém e nenhumas férias
Com Espanha em recessão, Sergi faz o contrário de toda a gente: acelera. Consegue o seu maior êxito e perde-o quase ao mesmo tempo.
Capítulo 5 · 2009
Oooferton: o primeiro site espanhol de uma oferta por dia
No final de 2008 conhece Luis Krug, que vinha da redcoon.com, uma loja alemã de eletrónica. Sergi mostra-lhe os números do Casinuevo e Krug propõe-lhe uma ideia: um site que vende um único produto por dia, a preço de saldo e durante apenas 24 horas, como o Woot nos Estados Unidos ou o iBood na Europa. Em 2009 o formato chamava-se live shopping.
«Este 2009, que para muitos é um ano para aguentar por causa da famosa crise, eu vejo-o como um ano de oportunidades.»
A 29 de abril de 2009 sai o oooferton.com, com três «o». O site apresentava-se como «o primeiro portal espanhol de live shopping: um único produto, um só dia de venda». Sergi é cofundador e CTO, e também a equipa técnica inteira: «não tenho ninguém a meu cargo que faça tarefas de programação e, no fim, sou eu que tenho de fazer a maior parte».
oooferton.com17 ago. 2010
O Oooferton em agosto de 2010: uma câmara Kodak, um relógio em contagem decrescente e o botão «Fico com ele!». Uma oferta, um dia.
Cresce depressa. Em maio estreiam um escritório «muito maior» na rua Llull, 393, mesmo ao lado do Iniciador. Sergi procura programadores de PHP no Twitter. Em julho, de regresso de umas miniférias em Tenerife e quase sem dormir, grava numa escala em Madrid uma entrevista com Rodolfo Carpintier para a Baquía TV, o canal de vídeo do site espanhol de notícias tecnológicas Baquía. Saiu em três partes: «As pessoas querem continuar a comprar o que está na moda, mas mais barato», «Achamos que o live shopping vai funcionar bem em Espanha», «Seria bom ter um call center para facilitar a compra».
Em agosto estreiam armazém. «Em agosto não só não fechamos para férias, como estamos abertos NAS férias.» (Em Espanha, agosto é o mês em que meio país pára.) Em outubro escreve no Twitter: «265 encomendas confirmadas no oooferton num dia, êxito total». Noutro sábado: «de rastos, 14 horas a trabalhar num sábado… mas o carrossel do oooferton foi um êxito».
de faturação mensal aos 8 meses
100 000 €
de faturação mensal aos 8 meses
encomendas num só dia, out. 2009
265
encomendas num só dia, out. 2009
utilizadores registados, fev. 2010
200 000
utilizadores registados, fev. 2010
de crescimento semestral médio
+80 %
de crescimento semestral médio
Números publicados pelo próprio Sergi no seu blogue em dezembro de 2009 e fevereiro de 2010. Em 2025 resumia-o assim: «entre 100 000 e 150 000 € por mês, mas com uma margem muito mais pequena, entre 10 e 15 %».
No final de 2009 Sergi dirige três empresas «que pouco têm em comum entre si»: a Desig, a Cyberworld Networks e o Oooferton. E, mesmo assim, prepara a mais ambiciosa de todas. Em agosto descreve-a sem dizer o nome: «um trabalho de quase um ano… um projeto muito mais ambicioso do que o irmão mais novo, o casinuevo… o primeiro projeto que lanço sem ter participado diretamente no desenvolvimento».
«Podemos falar de êxito? Evidentemente que não, porque enquanto não gerar receitas e crescer não o será. Mas é uma enorme satisfação conseguir concretizar uma coisa tal e qual a querias. Senti-me um pouco como um realizador de cinema.»
O Cladoo ia ser um portal de classificados mundial e multilingue, generalista mas com o detalhe de um portal especializado. O objetivo: «multiplicar por 200» as visitas do Casinuevo. A 24 de novembro de 2009 apresenta-o para a América Latina em streaming, «um pouco nervoso». O Loogic, o blogue de referência das startups espanholas, faz-lhe uma resenha: «Cladoo, novo projeto de classificados do fundador do casinuevo.net».
cladoo.com16 mar. 2010
O Cladoo, os classificados que queriam ser mundiais. Em janeiro de 2010 Sergi voltou a programá-lo ele próprio: «Pego nas rédeas do Cladoo».
A 4 de janeiro de 2010 escreve os seus propósitos: faturar quatro vezes mais em todas as empresas, aumentar a equipa, lançar variações dos negócios e «procurar algum investidor». E remata: «UM 2010 ENTUSIASMANTE».
Seis semanas depois daquele «2010 entusiasmante», publica o texto mais difícil do blogue.
«Por várias circunstâncias, e lamentando-o muito, vejo-me obrigado a vender a minha participação na empresa do oooferton.com. Não consigo com todos os meus projetos. A minha parte é de 21 %.»
Não procura um investidor, mas alguém como ele, «com vontade de continuar a fazer o site crescer… porque o projeto, no futuro, vai ser gigante». A 26 de março assina a venda: «desvinculo-me oficialmente do oooferton».
oooferton.com11 jun. 2013
O Oooferton em 2013, já sem ele: sorteios de televisores, patrocínio da feira de comércio eletrónico eShow e faturação de milhões. O projeto «vai ser gigante», tinha escrito ao vender.Anúncio do Oooferton (canal OfertonTV) · 2011 · a marca que ajudou a construir, já na televisão
Mas o texto que publica nesse mesmo dia não é triste. É um dos mais luminosos que alguma vez escreveu:
«Estou muito mais relaxado, a dedicar mais tempo ao lazer, ao desporto, a sair… Curiosamente, é nesse tempo livre que tenho tido as melhores ideias. Aproveitem a vida, façam tudo o que vos preencha e vos divirta, sejam felizes, e tudo vos correrá muitíssimo melhor a nível profissional.»
Nesse mês a Desig bate o seu recorde, as receitas de publicidade da Cyberworld sobem mais de 200 % e o Cladoo cresce 90 %. Em maio lança com um sócio uma rede de blogues (mundial-noticias.com, conducemotor.com, misdocumentales.com, siervogeek.com, gran-hermano-noticias.com) e fecha a venda de ações do Cladoo. Em abril volta a Tenerife para conhecer um possível investidor «que pode dar-me capital e recursos para que os projetos se destaquem a nível mundial».
Uma aceleradora, uma ronda de investimento e o fundo do poço
Os anos em que sobe mais alto no mundo das startups e cai mais fundo na vida pessoal. Tudo nos mesmos dezoito meses.
Capítulo 8 · 2011
Silêncio
O blogue cala-se durante ano e meio. No Natal de 2011 aparece um texto curto: «Depois de quase ano e meio sem escrever… a minha ideia é retomar o blogue, porque era uma forma de refletir». Anuncia um grande texto com «tudo o que de bom e de mau teve 2011». Esse texto nunca chegou a ser publicado.
Entretanto, não pára. Num evento da Fundação Iniciador conhece Daniel Rodríguez Arias, um empreendedor de Valência. Daniel contaria que os unia não se conformarem com «um emprego fixo, um horário de oito horas e não poder explorar as nossas capacidades». Em abril de 2011 fundam juntos a R Que R 17 S.L., que acabaria por se chamar Onyougo Dreams. Em julho, com Daniel e com o antigo sócio Luis Krug, monta a Diva Loca S.L., uma loja online de desporto e vestuário que durou até 2013.
sergirodriguez.com8 fev. 2012
O seu blogue, «Sergi Rodríguez | Programador ou empreendedor?», em fevereiro de 2012: os votos de Natal de 2011 por cima da crónica do COMITUR de 2010. Catorze meses entre os dois textos.
No Twitter aparecem as suas corridas em Montjuïc, registadas com o RunKeeper. Em agosto de 2012 publica: «15,79 km – a experimentar longa distância».
Capítulo 9 · 2012 – 2016
Onyougo: três vidas da mesma ideia
«Quantas vezes vamos à Media Markt e acabamos por comprar o que nos recomenda o rapaz da loja? Depois destas perguntas nasce o Onyougo.»
Primeira vida (2012): uma rede social de produtos. Listas do que tens e do que queres, opiniões e perguntas aos amigos. «Neste momento estamos no barco duas pessoas: o Daniel Rodríguez Arias e eu.» Em novembro de 2012 anunciam o Reino Unido, a Roménia, a Arábia Saudita, a Suécia, a Polónia e uma versão em catalão: 16 países, 20 000 utilizadores e 50 000 visitas por dia em toda a rede.
onyougo.com3 dez. 2012
O Onyougo na primeira vida: uma rede social para decidir o que comprar a partir do que pensam os teus amigos.
Segunda vida (2013–2014): um comparador de preços. Em 2014 chega o momento de maior visibilidade. O Onyougo é selecionado, «entre mais de 150 projetos», para a segunda edição da Conector Startup Accelerator, em Barcelona. A Conector era a aceleradora de Carlos Blanco, um programa com mentores ao estilo da Techstars, e tinha como sócios Risto Mejide (publicitário conhecido em Espanha como jurado implacável de concursos de talentos na televisão), Marc Ros, Xavier Verdaguer e Miguel Vicente, cofundador da Letsbonus (um site de promoções ao estilo Groupon) e da Wallapop (a principal app de artigos em segunda mão em Espanha). Os mentores do Onyougo foram Axel Serena, Marc Ros e David Tomás.
Aquele grupo teve sorte. Na mesma edição, a Barcelona #2, estava a Kompyte, que a Semrush compraria em 2022 por 10 milhões de dólares. Na seguinte entrou a Glovo, a app de entregas. Sergi partilhou corredores, mentores e Demo Day com essas equipas.
conector.com/aceleracion-startups/barcelona-22015
A turma Barcelona #2 da Conector: o OnyouGo ao lado da Kompyte, Singularu, Zizerones, eSportics e Regalamos.es.
Em novembro de 2014 lançam o «comparador de preços gratuito, colaborativo e insubornável»: mais de 1200 lojas em 16 países, sem que nenhuma pague para aparecer melhor. Em março de 2015 a EFE publica uma reportagem sobre a «app para tempos de crise»: digitalizas o código de barras na loja e ela diz-te onde está mais barato, entre 80 000 lojas e 19 milhões de produtos.
A 17 de abril de 2015 fecham uma ronda de 100 000 € liderada pelo fundo Antai, com os business angels Marc Ros, Risto Mejide, Axel Serena, Vicente Alán e Carlos Blanco.
projetos a disputar um lugar na Conector
150+
projetos a disputar um lugar na Conector
ronda com a Antai e Risto Mejide, 2015
100 000 €
ronda com a Antai e Risto Mejide, 2015
produtos comparáveis na app
19 M
produtos comparáveis na app
países com versão própria
16
países com versão própria
valenciaplaza.com1 mar. 2015
«Onyougo, uma app para tempos de crise». A reportagem da EFE que contou a história dos dois sócios, incluindo a hipoteca de Sergi para comprar a Desig.
Terceira vida (2015–2016): Radarprice. Em agosto de 2015 mudam o nome para Radarprice e falam de mais de 10 000 utilizadores em três meses. Dez anos depois, Sergi recordaria a lição mais cara: «começámos por atirar a todos os produtos, mais de 8 milhões de referências, e a todos os países. Gastámos mais de 6000 € só em domínios». Quando se concentraram numa única categoria, as fraldas para bebé, veio o reconhecimento: app da semana na App Store. «Começou a correr-nos bem quando encontrámos o nosso nicho.» Não chegou para salvar a empresa. Em janeiro de 2016 Sergi deixa a administração da sociedade. A última versão da app é de agosto de 2016 e a empresa entra em liquidação em 2018.
radarprice.com8 out. 2015
O Radarprice em outubro de 2015: digitalizas o código de barras na loja e a app diz-te se o tens mais barato noutra, online ou ao virar da esquina.Pitch do Radar Price no BizBarcelona · 2 de junho de 2016 · apresentado pelo sócio, Daniel Rodríguez, CEO (em espanhol)
Enquanto o Onyougo aparece nos jornais, aquilo que tinha construído antes desmorona-se.
Em março de 2014 ele próprio explicava porque tinha deixado de escrever: «uma relação faz sempre com que te acomodes um bocadinho, e cresças noutras coisas, sobretudo no plano pessoal». Refugia-se no que sempre o manteve à tona, o Casinuevo. «Estou concentrado em voltar a fazer do casinuevo.net um grande site.» Em abril de 2014 anuncia que «acabaram com a fraude» graças à verificação dos utilizadores por telefone.
E em outubro de 2015 publica o texto mais curto e mais honesto dos seus dezassete anos de blogue:
«Depois de tanto tempo sem rumo, volto a estar motivado. Com a mente suja e turva é impossível avançar; tive de sofrer muito para chegar a este ponto de paz. Não tenho MEDO. O medo bloqueia-te, impede-te de avançar, tolda-te, é o teu pior inimigo. Vamos comer o mundo? Alinhas?»
De fundador falido a CTO, e de CTO a fundador outra vez
Sai da caverna sem fazer barulho, pela porta que conhece melhor: a técnica. Primeiro em empresas de outros e depois, outra vez, nas suas.
Capítulo 11 · 2016 – 2019
Garantify: o homem dos arrendamentos volta ao setor
Em 2016 aparece como procurador da iStocks Company S.L., em Tarragona, em funções técnicas. Em junho de 2017 cofunda com Sergio Gonzálvez uma empresa que ataca um problema que conhecia dos tempos dos apartamentos: saber se um inquilino vai pagar.
A Garantify emitia um certificado de solvência do inquilino, com um seguro de renda da Allianz por trás, para que agências e senhorios arrendassem com menos medo. Sergi é o CTO. Arrancam com 150 000 € dos fundadores e 100 000 € de um investidor italiano (Alimarket, 2017).
garantify.com15 ago. 2018
A Garantify em agosto de 2018: «a primeira entidade certificadora do mercado». Na página da equipa, Sergio Gonzálvez (CEO) e Sergi Rodríguez (CTO).
O que se seguiu devolveu-lhe a confiança: finalistas do BBVA Open Talent 2018, o concurso de startups fintech do banco, um prémio no Finnovating #uProtech e presença no La Vanguardia, no El País, no El Mundo, na Emprendedores e na EFE. Em janeiro de 2019, no idealista/news (a secção de notícias do idealista, o maior portal imobiliário de Espanha, que muitos leitores portugueses também conhecem), a Garantify apresentava 1547 agências imobiliárias como utilizadoras. Segundo o Vozpópuli, fechou 2019 com cerca de 1,5 milhões de euros de faturação e sete trabalhadores, e procurava uma ronda de 10 M€. Em paralelo lança a Homesya, um portal imobiliário, e é nomeado administrador da Molista Technologies, um CRM imobiliário ligado, mais uma vez, a Luis Krug.
idealista.com/news24 jan. 2019
idealista/news, janeiro de 2019: «Garantify, a start-up que reduz as dores de cabeça no arrendamento e na compra de casa».
agências utilizadoras (2019)
1547
agências utilizadoras (2019)
faturação de 2019, segundo o Vozpópuli
~1,5 M€
faturação de 2019, segundo o Vozpópuli
levantados no total, segundo Sergi
~500 000 €
levantados no total, segundo Sergi
BBVA Open Talent 2018
Finalista
BBVA Open Talent 2018
A Garantify no «Emprende» (RTVE, a televisão pública espanhola) · 2019 · em espanhol
Em 2019 nasce o Adiós a mis deudas («Adeus às minhas dívidas»), um serviço para recorrer à Lei da Segunda Oportunidade espanhola, que permite a particulares e trabalhadores independentes arruinados ver perdoado o que já não conseguem pagar, algo semelhante à exoneração do passivo restante em Portugal. A sociedade é fundada por Jordi Pardo e Sergio Gonzálvez, o seu sócio na Garantify, com o escritório de advogados Aran Advocats. O site usava os textos legais da Garantify. Sergi indica-o no Facebook como um dos seus projetos e, em janeiro de 2020, divulga-o no Twitter: «Conheces? Lei da segunda oportunidade.»
Em fevereiro de 2021 o escritório anunciava ter perdoado mais de 2 milhões de euros de dívidas aos seus clientes em dois anos. Que alguém que viveu uma insolvência acabe perto de um negócio de segundas oportunidades encaixa bem nesta história.
adiosamisdeudas.com22 mai. 2020
Adiós a mis deudas: a Lei da Segunda Oportunidade espanhola explicada para que qualquer pessoa a perceba.
Shopipay: onze anos depois, de volta ao comércio eletrónico
A pandemia enche a internet de lojas Shopify e Sergi vê a lacuna: o checkout, o último passo da compra, onde se perdem mais vendas. Funda a Shopipay, um «checkout num só passo, personalizável, com upsells de um clique para Shopify», com planos de 29 a 199 US$ por mês. O primeiro testemunho do site é dele próprio, como dono de lojas: «aumentei o valor médio do carrinho em 20 %».
shopipay.ioarquivado a 17 fev. 2021
Starter
29 US$/mês
+1 % por venda
Pro
59 US$/mês
+1 % por venda
Scaling
199 US$/mês
+0,5 % por venda
«Pronto para pôr as tuas vendas a descolar?» Checkout num só passo para Shopify, mais de 160 gateways de pagamento, testes A/B e upsells de um clique. Preços segundo o site arquivado. Ver a captura
Por trás estão duas sociedades de 2020. A Ecom Apps S.L., em Valência, com Gerard Usero (formador em comércio eletrónico à cobrança), David Barberà e Eduardo Morant. E a The Ecommerce Space S.L. Os seus servidores processaram lojas reais a partir de junho de 2020. A Shopipay acabou por se chamar ShopWin e chegou a anunciar mais de 2000 checkouts e mais de 2,5 milhões de euros processados.
A 28 de abril de 2022 a Emprendedores, uma das revistas de empreendedorismo mais conhecidas de Espanha, convida-o para um debate na Casa SEAT, em Barcelona, e apresenta-o como «empreendedor em série, fundador da Shoppipay (ShopWin), uma app para automatizar vendas, e atualmente a lançar um fundo de investimento em criptomoedas». Lá diz: «Se deres poder ao utilizador, ele vai gerar conteúdo.»
Um empreendedor também é aquilo que faz quando não está a empreender. O seu rasto público deixa estes carimbos no passaporte:
Fevereiro de 2009Equador«No Equador, um café: 0,25 dólares»
Junho de 2009TenerifeMiniférias e escala em Madrid para a Baquía TV
Setembro de 2010Lloret de MarModerador no COMITUR
Outubro de 2019AlicanteOnde a Garantify já tinha sede
Junho de 2022San Blas, PanamáIlha Franklin
Junho de 2026BaliOnde nasceu o FlexRoute
E deixa também alguém que experimenta tudo o que é novo antes de toda a gente, criptomoedas incluídas. Em 2021 os seus tweets falam de DeFi na Binance Smart Chain: o Beefy «a funcionar que é uma loucura», a StudentCoin «um pouco parada» e a lição do custo de oportunidade: «o mau é que perdes o custo de oportunidade». A 30 de agosto de 2021, um exploit na migração de um jogo NFT leva-lhe as personagens: «Lost all my #bmars in the migration exploit attack… can you return my dragons? 😢» (esse escreveu-o em inglês). Na primavera de 2022 já fala publicamente em montar um fundo de investimento em cripto.
«80 % do que nos preocupa NUNCA chega a acontecer. Aproveita o caminho.»
Twitter @sergirodriguez, 10 de julho de 2022
Fontes: Twitter @sergirodriguez arquivado no Wayback Machine (2009, 2012, 2019–2022) · blogue, julho de 2009 e setembro de 2010
VI
Parte VI · A ressurreição · 2024–2026
Sergio de la Rosa
Aos 42 anos muda o nome de guerra, volta a programar todos os dias e faz do primeiro conselho que deu, em 2009, o seu ofício: automatiza.
Capítulo 15 · 2024 – 2025
O programador que voltou
A 14 de maio de 2024, quase nove anos depois de «Voltar a ter fome», o blogue sergirodriguez.com publica um texto novo: «Como a inteligência artificial pode ajudar quem presta serviços». É dirigido a massagistas, osteopatas e cabeleireiros, e fala de marcações, lembretes e chatbots. Parece pouca coisa, mas é o primeiro sinal do regresso.
Pouco depois, o seu LinkedIn, o mesmo /in/sergirodriguez que tinha desde 2009, passa a chamar-se Sergio de la Rosa. Nasce o sergiodelarosa.online, «consultor tecnológico e especialista em IA», e o canal de YouTube @sergiodelarosa_ia, com cerca de 200 vídeos sobre ferramentas de inteligência artificial; só em outubro de 2025 publicou uns 84. No Instagram, @spnfury passa a ser «Sergio de la Rosa | Ganho dinheiro com IA».
«Automatiza: tenta ter automatizada a maioria dos processos do dia a dia da tua empresa, de maneira a que te roubem o menor tempo possível.»
Constrói rececionistas de voz com IA que atendem chamadas, marcam consultas e esclarecem dúvidas, ligadas ao software que cada setor já usa: Doctoralia em clínicas, CoverManager em restaurantes, QVET em veterinários, Witei em imobiliárias (os equivalentes espanhóis dos sistemas de marcações e de gestão que os negócios usam em todo o lado). Monta chamadas automáticas a leads com IA de voz (Setter IA), um curso de vídeos UGC feitos com IA, com área própria para os alunos, e a SellTok, uma agência de TikTok Shop. Em março de 2025 dá um webinar para o clube C4E sobre como vender no TikTok Shop, apresentado como «consultor especialista em IA».
Em junho de 2025 é entrevistado no «Meraki», um programa sobre marketing e talento, sobre IA para negócios. Nas suas aulas apresenta-se assim: «estou há 20 anos no digital a fundar startups, e há 4 anos na inteligência artificial».
Tudo sobre IA para negócios (programa «Meraki») · 17 de junho de 2025 · em espanholA IA e o regresso das ideias esquecidas · 3 de outubro de 2025 · Sergi recorda o Onyougo, a app que lia códigos de barras, e como a IA o tornaria hoje muito mais fácil (em espanhol)
Quinze anos depois do Oooferton, volta ao live shopping, desta vez a sério: em vídeo e em direto.
Em setembro de 2025 senta-se no POVCA$H, um podcast de empreendedorismo de dois apresentadores jovens, para falar de TikTok Shop. Acaba por fazer algo que em vinte anos de blogue nunca tinha feito: contar tudo. Durante hora e meia revê os números, as falências e as traições.
Como vender no TikTok Shop, com Sergio de la Rosa · POVCA$H · 18 de setembro de 2025 · 1 h 39 min · a entrevista mais biográfica que deu (em espanhol)
A traição. Quando lhe perguntam o que marcou um antes e um depois, não fala de um negócio:
«A mim já me despediram da minha própria empresa. Numa assembleia de acionistas, a que eu ia cheio de entusiasmo: “Sergi, podes sair um momento da sala? Vamos votar.” Em termos anímicos, aquilo destroçou-me.»
Não diz que empresa foi nem quem votou, e esta página também não o dirá. Conta, isso sim, o que aprendeu: eram oito sócios, tinha metido vários «sem pôr capital, em troca de trabalho ou de publicidade», e agora olha para tudo «com oito olhos». «Uma empresa é como uma mesa: precisas de quatro pernas equilibradas. Não enchas a empresa de oito sócios, porque depois aquilo vira uma Guerra dos Tronos.» E o que mais valoriza hoje num sócio: «não tanto as competências, mas que seja boa pessoa».
As falências. Perguntam-lhe pelo momento mais duro. «Já fui à falência várias vezes. O Pablo Motos contava que, enquanto não fores à falência três vezes, não ficas milionário… A mim falta-me uma.» (Pablo Motos é o apresentador de «El Hormiguero», um dos talk shows mais vistos de Espanha.) E logo a seguir corrige: «Onde mais sofri foi quando me traíram.»
O dinheiro.«Ganhei muito dinheiro e geri-o muito mal.» Conta que perdeu «muitíssimo dinheiro» com cripto, «sempre com a ideia de ganhar dinheiro rápido: bots, trading, scalping». Hoje põe de lado todos os meses entre 10 e 15 % do que ganha em Bitcoin, «como uma religião», e foi percebendo que «isto é uma corrida de fundo». O seu recorde de faturação num só dia: 35 000 €, com uma loja online.
O arrependimento. No fim, numa ronda de perguntas rápidas, faz uma confissão que ninguém lhe tinha pedido:
«Arrependo-me muitíssimo de uma coisa que fiz há uns três anos e meio: promovi um bot de criptomoedas. Um sistema multinível. Entrei porque se ganhava dinheiro muito depressa, e não tinha bem consciência de que aquilo não era o que prometia. Eu avisava que era de alto risco, mas houve gente que perdeu dinheiro de que precisava. E aí aprendi que o dinheiro que entra depressa sai depressa.»
Contá-lo em público, e ser ele próprio a pôr esse excerto no seu canal, diz tanto sobre ele como qualquer êxito. Sete meses depois começaria a construir o seu próprio bot, com uma regra escrita desde o primeiro dia: «aprender, mas sem perder».
Em 2026 Sergi trabalha como um estúdio de produto de uma só pessoa, com a IA como equipa. No mesmo servidor convivem mais de quinze produtos próprios, cada um com o seu domínio, a sua base de dados e a sua história:
RadarGas e Gasolina Barata: o comparador do Onyougo aplicado a mais de 11 000 postos de combustível espanhóis, com dados oficiais do Governo e app para iOS.
MotionClone: um SaaS pago, com clientes reais, para clonar movimento em vídeo com IA, com extensão para o Chrome.
Currofácil: um portal de emprego local com currículos e vídeo-currículos gerados com IA.
PlanazosBCN: programas para fazer em Barcelona, com pré-reserva via Stripe e autocolantes QR nos restaurantes.
Money17: de um produto da Amazon a um vídeo feito com IA no YouTube, de forma automática.
BrandPilot: sites e landing pages em marca branca para agências.
Casinuevo, vinte anos depois, com a Homesya como vertical imobiliária no México e em Bali.
CodigoAmigo, Malprecio, IA Pasión, VideoForge, Fútbol en la Tele…
radargas.comsetembro de 2026
O RadarGas hoje: mais de 12 000 postos de combustível comparados com dados oficiais. A ideia do Onyougo, doze anos depois, aplicada aos combustíveis.
Em junho de 2026 voa para Bali e procura maneira de voltar via Saigão ou Banguecoque. Dessa procura nasce outro projeto, o FlexRoute, um planeador de voos. É ele em estado puro: uma viagem transforma-se num produto.
Capítulo 18 · Abril – setembro de 2026
O bot que nunca ganhou (e o que lhe ensinou)
A prova mais dura de 2026 não tem clientes. É um bot de trading de criptomoedas chamado Cryptorico, que opera futuros perpétuos. Sergi começa-o a 12 de abril de 2026 com um objetivo simples, «um bot rentável e estável», e com uma franqueza rara nesse meio: «não percebo nada de trading». A sua regra: «aprender, mas sem perder». Até hoje nunca arriscou dinheiro real. Tudo correu em conta demo ou em simulação.
A história do bot repete a história de toda a sua vida:
Abril–maio: negociar as notícias. O bot lê notícias e abre posições. Ao fim de seis semanas chega a «limpeza total»: as entradas chegavam depois do movimento. Não havia vantagem. Pelo caminho, 307 «fechos fantasma» em duas horas e meia, um short de bitcoin com alavancagem extrema por causa de uma notícia sobre outra moeda, e três dias parado sem ninguém dar por isso.
Junho: seguir a tendência. Uma auditoria descobre que dois terços das perdas eram comissões. Testam-se gráficos de 4 horas e diários. Decisão: só tendência diária, com uma regra para a matar escrita antes de ver os resultados.
Junho–julho: scalping e order flow. Cruzamentos de médias, bandas de Bollinger, CVD, funding, VWAP, carry, pares. Tudo morre. Uma estratégia que ganhava 100 % das vezes em 8 operações perde em 470. Daí sai a primeira lição registada: «n=8 mente». E outra: nas moedas grandes, as comissões comem qualquer vantagem fraca.
Julho–setembro: a fábrica de estratégias. Gerações inteiras de configurações (109, 170, 98, 50…), mais de 450 no total, comparadas com um «controlo morto» e com 40 séries de cara ou coroa. Nenhuma bate o acaso de forma demonstrável. A 12 de setembro de 2026 fecha-se o programa de previsão: provar uma vantagem de 0,15 % por operação exigiria mais de dois anos de dados.
«Mexer num limiar depois de ver o resultado foi a forma como este projeto se autoenganou umas 450 vezes.»
Documentação do projeto, agosto de 2026
É um fracasso financeiro sem perdas e, provavelmente, a melhor escola que alguma vez teve. Desse bot saem as regras que hoje aplica a qualquer produto:
de dinheiro real arriscado
0 €
de dinheiro real arriscado
configurações testadas
450+
configurações testadas
que batessem o acaso
0
que batessem o acaso
pista ainda viva: market making em altcoins
1
pista ainda viva: market making em altcoins
∞
Epílogo · O regresso com o elixir
O que fica depois de cair tantas vezes
Na jornada do herói, a aventura termina quando ele volta a casa com algo que serve os outros. Vinte anos depois de hipotecar a casa, o que Sergi traz é um conjunto de regras aprendidas à força:
1Entusiasmo, persistência e uma fé infinita naquilo que se faz.A sua resposta em 2009 sobre o que precisa um empreendedor. Dezassete anos depois, continua igual.
2Especializa-te.O Radarprice começou com 8 milhões de produtos e só foi app da semana quando se concentrou nas fraldas.
3Concentrar-se vale mais do que dispersar-se.Três empresas ao mesmo tempo custaram-lhe os seus 21 % do Oooferton pouco antes de valerem milhões.
4O lazer não é inimigo do rendimento.«É nesse tempo livre que tenho tido as melhores ideias.» Março de 2010.
5O medo é o teu pior inimigo.Escreveu-o em 2015, ao sair da fase mais escura.
680 % do que nos preocupa nunca chega a acontecer.Julho de 2022.
7n=8 mente.Aprendeu-o em 2026 com um bot que nunca ganhou. Vale para o trading, para as startups e para a vida.
8Cuidado com quem metes na tua empresa.Aprendeu-o quando o afastaram da sua numa assembleia de acionistas.
9Automatiza.O primeiro conselho que deu, em 2009, é hoje o seu ofício.
Hoje assina como Sergio de la Rosa e ajuda empresas a automatizar com inteligência artificial aquilo que ele demorou vinte anos a aprender a fazer à mão. No GitHub continua a ser spnfury. Diga olá no LinkedIn →
Apêndice A
Cronologia completa
Nasce na província de Barcelona.
Secundário na via tecnológica e dois cursos superiores profissionais de informática (Escola del Clot, IES La Ferreria).
Programa a primeira versão do oh-holidays.com.
Técnico de redes na Kalise Menorquina, freelancer e depois programador na Open House Spain.
Entra como gestor de projeto na Desig Barcelona. Põe «apartamentos barcelona» no topo do Google em 9 meses.
Primeiros anúncios no casinuevo.net.
Compra 50 % da Desig, hipotecando a casa.
Constitui a Cyberworld Networks S.L. (Casinuevo e versões para o México e a América Latina).
Primeiro Iniciador Barcelona.
Viagem ao Equador.
É constituída a Oferton Liveshopping S.L.
Lança o oooferton.com com Luis Krug, como cofundador e CTO.
Escritório novo na rua Llull, 393.
Entrevista com Rodolfo Carpintier na Baquía TV.
265 encomendas num dia no Oooferton.
Apresenta o Cladoo para a América Latina. Resenha no Loogic.
Dirige três empresas: Desig (8 pessoas), Cyberworld e Oooferton (100 000 €/mês).
Vende os seus 21 % do Oooferton, «obrigado». Melhor mês da história da Desig.
Rede de blogues e venda de ações do Cladoo.
Moderador no COMITUR, em Lloret de Mar.
Ano e meio sem escrever. Funda a R Que R 17 (Onyougo) e a Diva Loca S.L.
Nasce o Onyougo, rede social de produtos eletrónicos.
Onyougo em 16 países, 20 000 utilizadores.
O Onyougo entra na Conector Startup Accelerator (Barcelona #2, com a Kompyte).
Venda do site desigbarcelona.com. A Central de Reservas Desig entra em insolvência.
Lança o comparador «insubornável».
Ronda de 100 000 € com a Antai, Risto Mejide, Marc Ros, Axel Serena, Vicente Alán e Carlos Blanco.
Dissolução judicial da Central de Reservas Desig.
O Onyougo passa a chamar-se Radarprice.
«Voltar a ter fome, evitar o medo».
Deixa a administração da Onyougo Dreams.
Procurador da iStocks Company S.L.
Cofunda a Garantify com Sergio Gonzálvez, como CTO.
Finalista do BBVA Open Talent. Administrador da Molista Technologies.
Nasce o Adiós a mis deudas. A Garantify fatura cerca de 1,5 M€.
Ecom Apps S.L. A Shopipay processa as primeiras lojas Shopify.
The Ecommerce Space S.L.
DeFi e cripto. Perde os seus #bmars num exploit.
Debate da Emprendedores na Casa SEAT: «a lançar um fundo de investimento em criptomoedas».
Viagem a San Blas, no Panamá.
O blogue regressa, desta vez sobre inteligência artificial.
Nasce a marca Sergio de la Rosa: consultoria de IA, YouTube, rececionistas de voz.
Webinar sobre TikTok Shop no C4E.
Entrevista no programa «Meraki» sobre IA para negócios.
Conta tudo no podcast POVCA$H: as falências, a traição de uns sócios e o bot multinível de que se arrepende.
Arranca o Cryptorico, o seu bot de trading.
Viagem a Bali. Nasce o FlexRoute.
Fecha o programa de previsão do bot: nenhuma estratégia bate o acaso.
Mais de quinze produtos próprios e a história que está a ler.
Apêndice B
Fontes
Os números de visitas, utilizadores e faturação dos seus próprios projetos entre 2009 e 2013 foram publicados pelo próprio Sergi, no blogue e no LinkedIn, na altura. Os cargos nas sociedades vêm do Registro Mercantil, o equivalente espanhol do Registo Comercial português. Tudo o resto está ligado a imprensa ou a capturas do Wayback Machine. Quase todas as fontes estão em espanhol; os títulos foram traduzidos aqui para saber o que se vai abrir.
O seu blogue, sergirodriguez.com (Wayback Machine)